O que mais me faz humano?

Somos seres iguais e diferentes
Às vezes me paro à pensar, o que me torna diferente e igual ao restante das pessoas e, quem sabe, do mundo e do universo? Será a pretensiosa criação do homo habilis, por eu ser um construtor e reconstrutor do mundo, alguém capaz de intervir no meio em que habita e modificá-lo? Ou será o bom e velho homo faber, aquele que faz, que cria do “nada” algo novo, modificando os elementos da natureza e os transformando naquilo que a técnica permite em benefício de si e de sua espécie em constante luta pela superação tecnológica. Ou, ainda, não será o sempre atual homo sapiens sapiens, racional e em busca da verdade, senhor de si e do universo, por poder pensar a respeito desses e dar sentido e significado à sua eterna e tão curta passagem pelo mesmo? O que afinal me faz diferente e tão igual. Se fosse minha habilidade, esta seria tão igual a tantos outros animais, se fosse minha capacidade inventiva tampouco seria eu diverso, visto que até alguns peixes, quando em estado de ameaça, são capazes de criar coletivamente figuras para se proteger. Se fosse minha senhora razão não estaria eu igualado aos animais que comprovadamente tem inteligência, racionalidade, a exemplo de cães. Me deparo com uma crise profunda e dura, eu, único ser, até então, capaz de dar sentido e significado à própria existência não consegue encontrar algo que o diferencie substancialmente dos demais seres vivos.


Não sei qual sua crença, se é que tens uma, mas nesses momentos de extrema crise da minha própria
Somos os mais dependentes de nossos progenitores,
em especial da mãe.
razão me deparo com minha pequenez e é nela que encontro a resposta às minhas profundas, tão profundas que soam irrelevantes e surreais, crises do existir. Pequenez - essa talvez seja a chave de leitura aos dilemas do homem. Nascemos pequenos e dependentes. Os únicos animais absolutamente dependentes dos progenitores, em especial da mãe. Não há a mínima possibilidade de sobrevivermos um dia se quer longe de uma mãe, quer ela seja biológica, quer seja adotiva. Somos seres, por excelência, de carência e esta que parece ser nossa limitação é justamente o que nos transforma nos seres com maior potencial de toda a natureza. Este é o sentido novo que a antropologia filosófica nos apresenta a partir do séc. XIX e que muda toda a nossa compreensão de quem somos – seres de carência – necessitados da compreensão dos próprios limites. Necessitados de amor, cuidado, afeto e sentido. O que mais nos torna humanos se não essas necessidades? O que nos identifica como espécie se não nossa dependência de coisas abstratas que se materializam para após, novamente, ficarem abstratas, como o amor que inicia em um conceito, se materializa em gestos para, novamente, se tornar conceito?

Se é isso que me difere e me iguala, por que ainda não consigo, muitas vezes, enquanto pessoa e enquanto humanidade, olhar ao outro com afeto? Tornei-me eu tão frio e preocupado em suprir minhas carências que esqueci que sou também responsável por suprir a de outros? Parei para pensar e percebi que há em mim o desejo do cuidado, percebi quando, ao passear no shopping com a pequena Emanuella, minha afilhadinha de um ano e meio, encontrei o sentido dado pela antropologia filosófica à este ser de carência que esqueceu que um dia fora pequeno e totalmente dependente e tornou-se esquecido do real sentido do existir, de dar sentido ao próprio existir. E onde entra a crença? Aquela que me alertou disso é o que na tradição judaica sempre subsistiu, a personificação feminina de Deus, que por ironia do caminhar ou minha busca por sentido, hoje leva o nome de Emanuella – Deus conosco – e foi no ser carente dessa criaturinha adorável que percebi meu ser carente e transcendente. Na perspectiva do cuidado e do zelo por uma criança pude perceber que o que me faz humano, e nada mais parece fazer-me, é o afeto necessitado e desprendido, realizado e vivido, externalizado e sentido. Espero poder eu aprender a cuidar da vida a partir da própria vida.

Altemir Schwarz
Educador - Filosofia e Ensino Religioso
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2 comentários

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Rosana de Jesus Coelho
Administrador
5 de novembro de 2014 18:05 ×

Ahh! Gostei do espaço de filosofia! E também da reflexão! Num tempo em que muitas das nossas relações humanas são selvagens, saber e sentir na pele o que nos faz mais humanos é uma graça!

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Anônimo
Administrador
5 de novembro de 2014 18:29 ×

É fácil falar em humanidade... as palavras sempre podem esconder as atitudes e embelezar até as piores coisas. Bonito falar de humanidade, agir como humano é outra história. Ignorar a existência de quem passou tão perto, de quem fez muito por ti, ingratidão, isso é humanidade? As palavras sempre podem enganar. O que te faz ser mais humano é reconhecer o valor do outro, tratar o outro como gente e não como objeto.

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